30 anos, olhos sujos, signo leão
apesar do esforço, ainda tem carinha de bom moço
tem surtos de lucidez, às vezes bons,
mas em 99% do tempo é medíocre, mediano, comum, encurradado, desistente, ausente, preguiçoso, arrogante, insosso, apanhado, desiludido, inútil e pouco afeito a ajudar os outros
gosta de cães e gatos mas ainda não inventaram essas coisas nem bebês que se desliguem quando te percebem de saco cheio
é obsessivo e até um pouco metódico, mas isto somente dentro da obsessão
no resto do tempo, é um arrastar-se sub-reptício, um extraditar-se infinito,
um riso da clandestinidade, uma alegria dissimulada, uma tristeza submissa, o sacrifício diário de um sonho cada vez mais infinito à medida que desbota
ainda espera viver de música mas não tem feito por onde
possui um método comum de sabotar seus projetos criando outros mais interessantes, que até hoje funcionou tão bem que seu cemitério é um campo de montículos sem cruzes onde rolam crânios facilmente desenterrados pela chuva, e onde não há lápides senão uma grande placa de entrada em forma de sorriso, como se a coisa fosse uma pequena chácara e não um depósito de corpos
escreve mais ou menos e essa é outra de suas desgraças
tem os valores distorcidos, é óbvio, e exemplo disso é ter descoberto as maravilhas da memória fraca - nada a ver com maconha, já disse, pois fumou menos que a maioria dos estudantes primeiranistas de fonoaudiologia - é mais a coisa de tudo parecer novidade, mesmo os filmes já vistos, as canções já cantadas, as mulheres pelas quais já se apaixonou; o lado ruim da coisa é um certo dèjá-vu, uma chata indiferença blasé, que cresce com o passar dos anos e é um dos motivos para ele acreditar ainda menos em reencarnação
com a preguiça não concorda mesmo: nunca fez as pazes com ela
acha que dormir é um desperdício, a não ser que saiba que está sonhando
aí é possível voar sem avião, trepar sem limites, fazer maldades e procurar inutilmente espíritos, pois, quando você tenta penetrar na mente daqueles seres de sonho, eles geralmente não têm nada e parecem bonecos feitos de uma borracha mole porosa, uma coisa estranha, sabe?, mas acordar depois de qualquer dessas experiências é muito bom e são poucas as pessoas que conseguem e que o fazem com tanta freqüência quanto ele
mas odeia aranhas e sonhar com elas
acha que está crescendo, mas já achou tanta coisa, e tanto esteve errado, que não tem certeza disso
tem a impressão de que tudo o que descobre, na verdade, já sabia, e que, pior, a maioria das pessoas sabe muito mais
descobriu-se, por exemplo, um invejoso convicto, mas não tem nenhum tipo de paranormalidade, não sabe botar olho gordo, e não representa risco à sociedade à sua volta
não estudou o suficiente para ter certeza de que é lixo aquilo que escreve
não toca violão como queria e não tem sobrado tempo nem para tocar como não queria mesmo
não sai por aí contando vantagem de si mesmo, mas, quando está com um sonho nos bolsos, aí, sai de baixo, é insuportável, fascinado, olhos brilhantes, sedutor
já aconteceu, sabe, - eu mesmo vi e achei aquilo muito estranho -
o cara chegou quietinho na reunião aberta de uma cooperativa de artistas,
escutou, escutou e sua hora tava quase vencendo, tinha uma entrevista,
aí levantou a mão e começou a falar de sonho, de liberdade, de guerrilha cultural, de subversão da forma, de garantia das liberdades, e foi tão inflamado que provocou risos de afinidade e sentou-se e recebeu um monte de palmas
depois pediu desculpas pela fuga, despediu-se e nunca mais apareceu
cara estranho, gente, juro, cara estranho
é capaz de coisas do mal, eu sei, eu o denuncio
tentou, por exemplo, contratar um assassino visando à minha pessoa
eu, o sabotador, o sequaz companheiro, o que faz com que ele gagueje quando está sendo burguês demais, mundano demais, angelical demais, passivo demais, tirano demais
eu, o freio de mão, o lado que reflete, o que sabe das coisas infinitas e lindas que se constrói na terra,
e ele quis me matar, não o perdôo
(vide procura-se um assassino)
desde então, nossa relação não é a mesma
mas eu sigo a seu lado
e ele sabe que sou eu que mando
e só neste ponto: no pouco que ele sabe
eu, quase sempre, sinto medo
3 comentários:
criatura fascinante você Almir, querido!
você daria seu próprio livro.
sem palavras...
escreva mais sobre você, você é raríssimo criaturo e as palavras que você escolhe e as frases lapidadas dão um prazer ainda maior de ler-te aqui estampado. impressionada.
como posso querer que a mulher vá viver sem mentir? não posso. só fico encucado: por que diabos mesmo?
já ouviu a resposta universal, por que sim!?
por que sim, meu caro!
e me diga, vai aparecer por aqui ou é necessário uma provocação literária, hein...rsrs
abraço, querido!
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